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Missão é acolher com justiça: Telma Lage, uma missionária na Amazônia

Missão é acolher com justiça: Telma Lage, uma missionária na Amazônia

Por Karla Maria e Osnilda Lima, fsp - Repam-Brasil   Missão é acolher com justiça  Telma Cristina Lage dos Santos é mineira, natural de Itabira, a terra natal do poeta Carlos Drummond de Andrade. Advogada, 46  anos, é também missionária. Diz que nasceu para isso e não poderia ser outra coisa. É Religiosa Missionária de Nossa Senhora das Dores. Nada é por acaso mesmo. Como coordenadora do Centro de Migrações e Direitos Humanos (CMDH) da Diocese de Roraima, ela segue socorrendo a dor dos que imigram para o Brasil. Como referência na luta pelos direitos dos migrantes, trabalha para oferecer dignidade na acolhida dos que chegam. Como seu conterrâneo, Drummond, essa religiosa tem levado certa poesia também aos mais pobres e famintos de alimento e de vida.  “Descobri esse trabalho aqui e às vezes, quando eu falo sobre migração, as pessoas vêm com aquela brincadeirinha: "Então leva pra sua casa, leva pra sua casa!". A gente não precisa levar ninguém pra casa fisicamente, a gente precisa abrir a porta do coração, porque quando a gente abre a porta do coração, todos os outros espaços se abrem. A porta do coração fechada elimina qualquer possibilidade”, ensina a religiosa. Foi no ano de 2016 que seu trabalho tomou proporções inesperadas. Em maio, o fluxo de venezuelanos começou a aumentar significativamente para o Brasil. A prefeitura de Boa Vista que cerca de 40 mil venezuelanos tenham entrado na cidade. Segundo a Polícia Federal (PF), em 2017 foram registrados 22.247 pedidos de refúgio por venezuelano. Em 2014, segundo a PF, havia apenas nove solicitações, mas já em 2015 o índice foi para 230. O aumento no número de pedidos coincide com o agravamento da crise econômica e social no país governado por Nicolás Maduro. Em 2018, o índice de solicitações ainda deve dobrar. A polícia diz que quase 100% desses agendamentos foram feitos por venezuelanos. “Chegavam ou o pai da família ou a mãe, sempre em busca de conseguir sustentar aqueles que ficaram na Venezuela. O fluxo aumentou muito e a PF não dava conta de atender ao número de solicitantes de refúgio. Então aqui em Boa Vista foi criado um agendamento para entrega de formulário”, explica a missionária. O tal agendamento dificultou a situação dos imigrantes, já que prorrogava a data para o solicitante de refúgio obter um número de protocolo e, sem este número, o imigrante permanece irregular no país, o que dificulta sua manutenção e acesso a trabalhos dignos, restando-lhes oportunidades precárias e análogas à escravidão. “Vi trabalhadores venezuelanos que trabalhavam o dia todo pra descarregar um caminhão receberem R$ 7 pela diária. Um trabalho desses pago a um brasileiro gira em torno de R$ 50 a R$ 80 a diária”, denuncia irmã Telma.  Para ela, a consequência disso é a disputa de oportunidades de emprego com os brasileiros, e disso surge a rivalidade e a resistência em acolher os venezuelanos, já que o contexto de desemprego em território brasileiro também é desanimador.  “Boa Vista [capital de Roraima] não é um lugar que oferece muitas possibilidades, então as poucas que havia realmente ficaram mais disputadas. Também aí tem uma questão muito grave, que é a da visão do lucro. O mesmo cidadão que condena a vinda do venezuelano para Boa Vista é o que o explora”, denuncia a missionária.  A submissão dos trabalhadores venezuelanos a atividades tão mal remuneradas se dá graças à precariedade em que a Venezuela se encontra. “Até dois, três meses atrás, o salário mínimo na Venezuela equivalia a R$ 50, então qualquer valor que eles conseguiam em uma semana aqui realmente tinha um alcance muito importante para os que ficaram lá, e eles precisavam sustentar os parentes”, recorda Telma.  Diferentemente da onda de imigrantes haitianos, que tinham o foco de se dirigir às regiões Sul e Sudeste do país para conseguir emprego e se estabelecer, os venezuelanos estão buscando uma maneira de sobreviver e de defender o sustento de quem ficou na Venezuela. Não eram raros os casos em que irmã Telma ouvia de venezuelanos que só comeram manga durante dois meses, porque manga tinha no mato. O desabastecimento que atingiu a Venezuela gerou uma fome muito grande e as empresas foram fechando. A missionária acompanhou uma família que tinha uma pequena fábrica de laticínios, mas o leite sumiu das prateleiras e não podiam mais produzir o iogurte, daí começaram a vender as máquinas até que não tinham mais o que vender.   A fome - No começo, conta irmã Telma, vinha alguém da família para sustentar, mas agora estão vindo todos. “Ontem mesmo eu recebi um casal que tem dois filhos e não tem nada em casa, não tem geladeira, não tem fogão, não tem cama, não tem colchão, dormem no papelão. Não tinham comida também. Foram lá atrás de comida. É uma situação muito limite”, desabafa a missionária.  “Por isso você vê que apesar de já ter mais de um ano desse fluxo, a concentração maior deles continua sendo aqui, em Boa Vista, apesar de não ser um lugar que ofereça tantas possibilidades. Os venezuelanos que a gente atende diariamente dizem: "Assim que a gente tiver oportunidade pra voltar, é na minha terra que eu quero ficar"”, conta a irmã. O trabalho da missionária não é leve, ao contrário. É trabalho de fronteira, de estrada e denúncia. Teve inclusive que ajudar na regularização de seis imigrantes que estavam em situação análoga à escravidão na cidade de Pacaraima, município brasileiro localizado no nordeste do estado de Roraima, na fronteira com a Venezuela, a cerca de 200 quilômetros de Boa Vista. “Um deles conseguiu fugir e pediu ajuda. Então o Ministério Público do Trabalho, junto à Defensoria Pública da União e a nós (CMDH), conseguiu resgatá-los daquela situação de escravidão. Eram quatro venezuelanos e dois cubanos. Ajudamos na documentação dessas pessoas”, diz a missionária. Há relatos de pessoas que foram caminhando de Pacaraima até Boa Vista em busca de alguma oportunidade de trabalho. “Essas pessoas estão fugindo da fome, da violência, do desconhecido, porque eles estão num momento de grande insegurança e a resistência da sociedade de Pacaraima é muito grande”, confidencia irmã Telma. A pequena Pacaraima nem seria notada não fosse sua localização geográfica. Ela fica bem na fronteira entre o Brasil e a Venezuela, e é tema de 50 processos judiciais no Supremo Tribunal Federal (STF), já que a cidade está na extensão territorial da Terra Indígena São Marcos e a Fundação Nacional do Índio (Funai) pede a retirada dessas pessoas da cidade fronteiriça.  Trata-se de uma fronteira seca, sem grandes obstáculos para a entrada de quem chega. Os obstáculos estão na falta de estrutura da cidade para acolher os que demandam serviços. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informa que em 2010 a cidade contava com pouco mais de 10 mil habitantes. Hoje, estima-se que são 25 mil pessoas. Impressiona a situação dos Warao, um dos povos indígenas mais antigos do Delta do Orinoco, no nordeste da Venezuela. Um grupo deles está na rua desde 2016, ao lado da rodoviária de Pacaraima. “Estão vivendo em um lote, uma área vaga, ao relento. Ali eles comem, lavam suas coisas, suas roupas, fazem tudo”, conta Irmã Telma. Os indígenas que imigraram para Roraima são cerca de 619. “Conversamos com algumas pessoas que estavam lá. Em uma noite fizemos cem atendimentos, tentando traçar o perfil dessas pessoas, e desde então encontrei vários deles aqui [Boa Vista]. Um estava com o pé muito inchado porque não resistiu a tanta caminhada. Então realmente eles sofreram muito e continuam sofrendo”, lamenta a irmã.  O caminho percorrido entre a cidade fronteiriça e a capital é a pé, porque em Pacaraima o posto da Polícia Federal não recebe solicitação de refúgio.    A luta diária – A missão não é fácil. “Você pegar uma criança e descobrir que ela tem um ano e três meses quando você pensa que é um recém-nascido. Não tem nada que prepare a gente pra isso e não tem como ficar indiferente. A gente chega num momento em que a indiferença é um pecado gravíssimo”, diz a irmã, lembrando as palavras do papa Francisco. “O clamor do pobre, o clamor da natureza é um clamor só”. Tanto a natureza e o nosso planeta quanto essas pessoas estão simplesmente tentando viver.  Às vezes a gente está tão acostumado à sobrevida que esquecemos que viver é muito mais do que isso, e todos nós temos direitos à vida em abundância, esse é o projeto de Deus, essa é a construção do reino de Deus pra nós e aí a gente passa por momentos em que nos questionamos sobre o que está havendo. Que cristianismo é esse?”, provoca a missionária. E é essa provocação que a impulsiona, diariamente, a ser instrumento da promoção da justiça, da igualdade entre os mais necessitados. Impulsiona-a também a contagiar os que a cercam em defesa da causa dos emigrantes por meio de seu trabalho no Centro de Migrações e Direitos Humanos (CMDH) da Diocese de Roraima. O CMDH tem cerca de 20 voluntários e um convênio com o Instituto de Migrações de Direitos Humanos de Brasília, que conta com uma rede de proteção ao migrante. A partir desse convênio o Centro começou a estruturar mais seu trabalho, oferecendo orientação aos que precisavam se regularizar junto à Polícia Federal. Em abril de 2017, com o objetivo de suprir a grande demanda de que a Polícia Federal não dava conta, o CMDH passou a fazer parte do processo de solicitação de refúgio, fazendo uma triagem e desafogando os técnicos da Polícia Federal. Em uma sala dentro da PF os membros, inclusive irmã Telma, fazem o atendimento ao imigrante   que precisa se regularizar.  Há a orientação quantos aos procedimentos, preenchimento de formulário de solicitação de refúgio, e as fotos são tiradas. “Quando o solicitante chega ao agente da polícia ele já está com sua documentação toda pronta e com isso a gente antecipa e economiza um pouco o tempo desses agentes, que não são muitos”, conta irmã Telma. O trabalho ajuda a diminuir a fila dos agendamentos e também oferece um atendimento mais adequado e humano aos venezuelanos que precisam de orientação e acolhimento. “Esse é o primeiro atendimento no Centro de Migrações de Direitos Humanos”, esclarece irmã Telma. Além do atendimento burocrático para a solicitação de refúgio, o CDMH da Diocese de Roraima atende outras demandas urgentes, como alimentação, entrega de cestas básicas e material de higiene e limpeza, além de roupas e calçados. “Conseguimos ajudar através das doações que recebemos. Oferecemos também atendimento jurídico e espiritual, às vezes chega alguém dizendo que veio chorar: ‘porque se eu chorar em casa eu vou desestabilizar todo mundo, e aqui eu sei que eu posso chorar que eu vou ser ouvida!’”, conta a irmã, que já foi ombro e colo de muitos. Quando há necessidade de encontrar escola para as crianças e jovens, o CMDH encaminha a demanda para a instituição de ensino mais próxima. “Se tem alguma resistência da escola, vamos à Secretaria de Educação e fazemos os encaminhamentos necessários”, explica a missionária. O mesmo trabalho acontece quando há necessidade de auxiliar o migrante em questões ligadas aos serviços de saúde, aos direitos trabalhistas, entre outros. Coisas simples como tirar uma carteira de trabalho. Para um imigrante  sem ao menos o protocolo de solicitação de refúgio, não há possibilidade de se tornar um cidadão regular no país.  “Cada família, cada pessoa que a gente consegue transformar é vida, e de vez enquanto a gente recebe isso também, alguém que passa e diz: ‘Irmã, hoje eu não vim pedir nada, hoje eu vim dar um abraço, porque eu sei que vocês estão aqui. Eu estou trabalhando, estou conseguindo me prover e sustentar minha família’”, diz sorridente e até emocionada a irmã. Sua voz transmite alegria.   Cabeça no travesseiro – Ao se deitar, irmã Telma tem a consciência de que ainda há muito a alcançar, mas fez tudo o que podia ser feito. “Responder tudo a gente não consegue, as demandas são demais para as pernas da gente, eu digo que a cada dia eu faço o meu possível e quando eu faço o meu possível, eu vou descobrindo, quando eu olho pra trás, que o meu possível de um ano atrás era muito pequeno e o meu possível de hoje se ampliou”. E assim, a religiosa, dona de um sorriso fácil e abraço daqueles que acolhem a quem chega, segue ajudando e denunciando a situação na fronteira do país, e mais, segue alargando o olhar dos brasileiros para acolhida aos venezuelanos, mostrando e ampliando as possibilidades do hoje e do amanhã para brasileiros e venezuelanos, para gente de toda cor e pátria. “A gente precisa entender como o papa Francisco nos disse: ‘os migrantes não são um perigo, mas eles estão em perigo e quem pode defendê-los somos nós’”.   
                                Simone Karipuna fala sobre a realidade de seu povo no Oiapoque

Simone Karipuna fala sobre a realidade de seu povo no Oiapoque

O direito a consulta prévia, livre e informada   “Qualquer empreendimento, qualquer coisa que o governo pensar em nossas terras indígenas, têm que antes nos consultar, têm que antes nos ouvir. Esse é o nosso marco”, disse a liderança Simone Karipuna. Simone pertence ao povo Karipuna que habita as Terras Indígenas Uaçá, Juminã e Galibi, no Oiapoque (AP). O território do povo Karipuna está localizado no extremo norte do estado do Amapá, região norte do Brasil que faz fronteira com a Guiana Francesa. Ao Sul com os municípios de Calçoene, Serra do Navio e Pedra Branca do Amapari. E é banhado pelo Oceano Atlântico ao Leste. Ao Oeste, faz fronteira com o município de Laranjal do Jari. Simone conta que os Galibi Marworno, Palikur, Galibi do Oiapoque juntamente com seu povo Karipuna, concluíram que o decreto do governo federal, que pretendia extinguir a Reserva Nacional de Cobre e seus Associados (Renca), seria a morte para seus povos. “Com o decreto a gente ficou muito exposto. Nossas terras estavam expostas demais. Imagina o nosso território sendo ocupado por mineradoras. Porque na hora que entrar em uma região se abre o precedente pra entrar em qualquer comunidade. Então pra nós seria a morte”, disse. A liderança lembrou que na ocasião todos os povos se uniram para diálogar e lutar para derrubar o decreto. Simone se diz angustiada sobre a possibilidade de ter mineradoras na região, pois os problemas começariam pela contaminação das águas do rios e igarapés e teme os impactos socioambientais que o empreendimento provocaria. “Imagine?! A gente pensou: é a morte para nós! ”, sentenciou. Simone lamenta as decisões verticalistas do governo: “Quando a gente vê algo ser construído de uma maneira tão brusca, de cima pra baixo e nós que somos os guardiões, nós que somos os cuidadores desse território, temos que simplesmente receber a notícia e ter de engolir. Então decidimos que a nossa defesa é a nossa união, quando mexe com um, meche com todos”, e lembra que onde está localizada a Renca, no Amapá e Norte do Pará, são onze povos indígenas identificados, mas que provavelmente são mais. “Aí a gente disse: Não, essa dor é de todos nós! A gente se uniu pra lutar juntos. E exigimos: Tem que consultar a gente, tem que respeitar. Então qualquer coisa, qualquer empreendimento sobre nossas terras tem que antes nos consultar, tem que antes nos ouvir”, protesta.
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