Diocese de Rio Branco – Carta Compromisso

Nós, do ventre da Amazônia acreana, das matas e florestas, das seringueiras e castanheiras, terra da samaúma e gameleira, rios e igarapés, campo e cidade, terra de padre Paulino, Chico Mendes, Ivair Higino, Wilson Pinheiro, Valdiza Alencar de Souza, Raimunda Alma do Bom Sucesso, indígenas, seringueiros/as, ribeirinhos/as, entidades civis, extrativistas, agricultores/as, agentes de pastoral, pesquisadores/as, docentes e discentes, religiosos/as, seminaristas, diáconos permanentes, padres, bispo da Diocese de Rio Branco, participamos do Seminário Laudato Si’ promovido pela Rede Eclesial Pan Amazônica (REPAM) na Diocese de Rio Branco. 
A abertura se deu às margens do Rio Acre, com o resgate da história de luta e resistência dos povos desta terra, das quais somos herdeiros (Comunidades Eclesiais de Base, Sindicatos e Seringueiros), lutas estas que impediram que no Acre houvesse tanta devastação, com a criação das reservas extrativistas. A seringueira era tudo para o povo. Dela e para ela vivia. Nela encontrava tudo o que podia pedir à vida. 
Mas vida do seringal era dura, amarga e ingrata. Nunca se progredia. O homem sempre preso sob as garras do patrão. O objetivo era extrair o leite da seringueira, buscando sempre aumentar os lucros, não importando se tal intento representava a morte lenta do seringueiro e de sua aliada fiel, a seringueira.
Maria, representada na imagem de Nossa Senhora da Seringueira do Acre, foi aqui também fonte e origem da fé em Jesus Cristo. A grande fé na Mãe de Deus está representada em uma pintura, quadro que foi conquistado pelos acreanos na batalha acontecida na Gameleira. O detalhe mais interessante é saber como Maria estava tão presente, tão perto do povo, tão no meio, que ela levou as marcas da luta da revolução acreana: as balas que trespassaram sua imagem. E, junto a ela, chegou também seu Filho, identificado no seringueiro, que completou na sua vida o que faltava à paixão de Cristo. 
Cristo foi seringueiro! Cristo também passou por aqui, passou pelo sofrimento do inocente, passou pela cruz e pela morte. Devemos sustentar, portanto, que o sofrimento do seringueiro foi o sofrimento humano que o mesmo Cristo viveu. Não podemos pensar o Cristo sem relação com a dor e o sofrimento daqueles seringueiros, antepassados nossos, pois neles Deus também foi atingido. Por isso, Cristo foi seringueiro!
Na certeza do Cristo que caminha conosco e iluminados/as pela Encíclica Laudato Si’, escrita pelo papa Francisco, nós, 150 participantes ouvimos, sentimos e refletimos sobre diversos problemas locais que nos preocupam. 
Os projetos do tipo Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD) que vêm sendo implementados nos seringais e terras indígenas, citamos o papa Francisco, que ilumina e orienta: “A estratégia de compra-venda de ‘créditos de emissão’ pode levar a uma nova forma de especulação, que não ajudaria a reduzir a emissão global de gases poluentes. Este sistema parece ser uma solução rápida e fácil, com a aparência dum certo compromisso com o meio ambiente, mas que não implica de forma alguma uma mudança radical à altura das circunstâncias. Pelo contrário, pode tornar-se um diversivo que permite o consumo excessivo de alguns países e setores”, (LS 171).
Consideramos que a mudança climática é apenas um dos problemas que está levando ao limite do planeta, como referencia a LS (24). E já está acontecendo nas comunidades indígenas e locais com igarapés secando, água poluída, pouca produtividade nas pequenas áreas de cultivo, mais calor, menos animais, muitas chuvas e secas mais fortes. Sob os reflexos da LS (25), perguntamo-nos: Os impactos recairão sobre quem? Com certeza sobre todos, porém, os mais atingidos serão os menos favorecidos. Que mundo deixaremos para as futuras gerações?
A ameaça às terras indígenas, às suas culturas e identidades, reflexo das leis opressoras, como a PEC 215, que é um retrocesso para a história de conquista de nossos direitos. A proposta de emenda à Constituição altera o procedimento de demarcação de terras, que deixará as populações indígenas ainda mais vulneráveis. 
Diante desses descontentamentos e inquietações, denunciamos o aumento da violência no campo, fruto da grilagem, expropriação de terra dos pequenos agricultores e das comunidades indígenas, como também os grandes projetos que se instalam na Amazônia, como agronegócio, hidrelétricas, dentre outros, que atingem o Acre, e que transformam a terra, a água, o ar e a floresta em mercadoria, pois são bens comuns, essenciais para a nossa sobrevivência.
Os projetos de manejo madeireiro que, além de causar um desequilíbrio ambiental, expropriam as pessoas, atingindo diretamente as comunidades tradicionais e seus modos de vida e a soberania alimentar, a criminalização e opressão de quem se opõe às políticas de mercantilização da natureza (agricultores, indígenas – como exemplo temos a situação do povo HuniKui no município de Plácido de Castro que sofre constantemente ameaças, violência e repressão, no Centro HuwaKaruYuxibu –, seringueiros, ribeirinhos, pescadores/as), são situações de denúncia.
Também denunciamos o modelo desenvolvimentista como: economia verde, projetos madeireiros, projetos garimpeiros, linhão, ferrovia, projetos petroleiros, manejo florestal e o monocultivo; o avanço do capitalismo, que fortalece o agronegócio, e seus efeitos que inviabilizam a comercialização de produtores das comunidades locais; o desmatamento mascarado pelas políticas públicas de incentivo à produção agropecuária; a ocupação das Áreas de Preservação permanentes (APPs) com a conivência e/ou negligência do poder público; o lançamento direto de efluentes (esgotos) domésticos, industriais e hospitalares em rios e igarapés.
Repudiamos, ainda, todos os tipos de violência, exploração sexual, tráfico de pessoas e trabalho escravo, criminalidade, impunidade, e as inúmeras formas de crime que atingem um número expressivo de jovens, diariamente atraídos para atividades ilícitas e a omissão do Estado em punir os aliciadores e traficantes de pessoas.
Impulsionados pela força viva da memória dos nossos mártires e de nossas conquistas, nos comprometemos a:

  • Ter uma conversão ecológica individual e comunitária, maior profundidade existencial, à luz da Encíclica Laudato SI’ (216);
  • Buscar conhecimentos sobre os povos indígenas do Acre para que haja comunhão entre os indígenas e não indígenas;
  • Viver em harmonia, cultivando a ecologia integral, mesmo vivendo espiritualidades diferentes;
  • Não fazer parte da cultura da globalização da indiferença;  
  • Cultivar o bem comum e o respeito pelo outro;
  • Fortalecer as ações de mobilização dos trabalhadores/as;
  • Utilizar as ferramentas de comunicação da Diocese a serviço dos pequenos trabalhadores/as como espaço de denúncia;
  • Incentivar os trabalhadores/as a utilizar a terra como ambiente de trabalho e não como terra de negócio;
  • Denunciar a omissão da justiça nos casos de grilagem de terra, violência contra a mulher;
  • Continuar as ações do tema da CF 2014 sobre o Tráfico de Pessoas;
  • Ter maior envolvimento com pessoas nas políticas públicas que defendam a vida em todas as formas;
  • Reivindicar, junto aos poderes públicos, políticas e meios para reinserção das pessoas atingidas pelo tráfico humano na vida familiar, eclesial e social;
  • Construir pontes de diálogo com vários segmentos sociais em forma de parcerias, colaborando com iniciativas para promover mudanças;
  • Fomentar a conversão ecológica por meio do comitê da REPAM em todos os movimentos, organismos e setores;
  • Promover seminários da Laudato Si’ nas Paróquias;
  • Realizar planejamento das metas propostas pelo seminário Laudato Si’ a curto, médio e longo prazo;
  • Reivindicar, junto ao poder público, a execução de ações para a coleta seletiva, recuperação e revitalização das nascentes, rios e igarapés;

E, juntos e irmanados, num só coração e uma só alma, manter a Esperança, à luz da LS (212), de que nossas ações se espalhem e frutifiquem sempre além do que é possível constatar, restituindo-nos do sentimento de dignidade e de que valeu a pena nossa passagem por este mundo e acima de tudo, assumir a vocação profética de anunciar e denunciar tudo aquilo que interferir o nosso bem viver na Casa Comum, pois “basta um homem bom para haver esperança” (LS 71).
Que Maria, Nossa Senhora Seringueira, leve a seu filho Jesus esses compromissos, para que sua presença nos sustente e encoraje na missão!