A Comissão Episcopal para a Amazônia e a Rede Pan-amazônica

Em 1997 participei como delegado da CNBB do Sínodo das Américas no Vaticano. Fui delegado também nas Conferências Episcopais Latino-americanas de Santo Domingo (1992) e de Aparecida (2007). Agradeço a Deus ter podido participar desses eventos tão importantes para a Igreja na América Latina. Procurei dar minha contribuição a partir da minha experiência na Amazônia. No final dos anos noventa, procurei nas assembleias da CNBB destacar a situação da Amazônia com os seus grandes desafios. A minha reflexão “Missionariedade e Solidariedade entre as Igrejas no Brasil” durante a 36ª Assembleia Geral da CNBB de 22 de abril a 1º de maio de 1998 surtiu como efeito a criação da Comissão Episcopal para a Amazônia. O objetivo dessa comissão é sensibilizar toda a Igreja no Brasil para a realidade das dioceses eprelazias na Amazônia. Dom Jaime Chemello – que tinha sido presidente da CNBB – ficou como presidente dessa comissão e a presidência da CNBB me convocou para fazer parte como secretário.

Ao final do mandato de dom Jaime como presidente dessa comissão, dom Damasceno, então presidente da CNBB, me telefonou e disse: “Dom Cláudio Hummes já retornou de Roma. O que você acha se o convidarmos para presidir a Comissão Episcopal para Amazônia?”. Fiquei entusiasmado e respondi que seria “um grande achado”. Dom Damasceno falou com dom Cláudio e este demonstrou uma imensa alegria em poder servir à Amazônia. E está com o mesmo entusiasmo até hoje, graças a Deus. Primeiro fiquei um pouco desajeitado na minha função de “secretário do Cardeal”, mas dom Cláudio “não tem bondade” como diria o povo no interior da Amazônia querendo com isso dizer: é um homem muito culto, mas ao mesmo tempo “muito dado”, avesso a tratamentos cerimoniosos. Afinal mesmo sendo cardeal não deixou de ser franciscano. Em todo caso, a sintonia entre nós é perfeita. Mas que seria da comissão sem a nossa assessora Irmã Irene, chamada carinhosamente de “princesa da Amazônia”? E agora também a Irmã Osnilda, jornalista e responsável pela comunicação escrita, falada e televisionada?

Quando a Rede Eclesial Panamazônica – REPAM foi implantada no Brasil, dom Cláudio me convidou a assumir a presidência da entidade no âmbito de nosso país. Na REPAM contamos hoje com um grupo de pessoas muito competentes e engajadas. Conhecem muito bem a Amazônia. Atualmente, pelo Brasil afora, se encarregam de promover seminários sobre a Encíclica Laudato Sí.

 

Laudato Sì e Amazônia

A Laudato Sì é um marco histórico na Igreja. O papa Francisco assumiu com coragem a questão da ecologia que muitos consideraram assunto exclusivo de movimentos ecologistas e de partidos verdes. Cada vez que leio a encíclica me dou conta da ousadia e competência com que o papa trata deste tema de tanta importância para a própria sobrevivência do gênero humano. Realmente o papa acertou na mosca! Deixou-se assessorar por muitos cientistas e pessoas que têm trabalhado esta questão.

No n. 236 o Papa Francisco fala da Eucaristia como “fonte de luz e motivação para as nossas preocupações pelo meio ambiente” que nos leva “a ser guardiões da criação inteira”. Ser guardião implica em assumir a responsabilidade de zelar pela criação e cuidar do meio ambiente, inclusive com vista às futuras gerações. O Papa Francisco rejeita categoricamente a interpretação de Gênesis 1,28 numa perspectiva de dominação implacável do ser humano sobre a criação, de exploração desenfreada e inescrupulosa dos recursos naturais como se nós fossemos a última geração.

A referência ao Cântico das Criaturas de São Francisco de Assis realça a harmonia que deve existir entre o ser humano e os outros seres criados que São Francisco chama de irmãos e irmãs. Essa visão de harmonia coincide com o entendimento que os povos indígenas andinos conservam desde tempos imemoriais quando falam de Sumak Kawsay (Bem Viver): Existe um ser supremo que criou todas as coisas e por isso deve ser amado e respeitado. Esta consciência faz o homem e a mulher viver em paz consigo mesmo e em harmonia com os irmãos e irmãs e ao mesmo tempo com todos os seres criados, com o mundo que nos circunda.

Como secretário da Comissão Episcopal para a Amazônia e presidente do CIMI tive o privilégio de, a pedido de dom Cláudio, ser recebido pelo papa em audiência particular. Foi no dia 4 de abril de 2014, às 10 horas. A nossa conversa logicamente girou em torno da Amazônia e dos povos indígenas. Ele me falou que estava trabalhando numa Encíclica sobre a Ecologia, mas frisou logo que seria sobre “a ecologia humana”. Aí insisti: “Santo Padre, o senhor não acha que a Amazônia e os povos indígenas devem ter um lugar específico nessa encíclica?” O papa concordou na hora e me pediu que fosse falar com o cardeal Turkson, presidente da Pontifícia Comissão Justiça e Paz, encarregado de sintetizar as diversas sugestões e propostas vindas de todo mundo. Num jantar em uma “trattoria” próxima ao Palazzo di San Callisto, no bairro Trastevere, encontrei-me com o cardeal “incógnito” juntamente com o ex-presidente da Misereor Josef Sayer e o teólogo padre Paulo Suess. O cardeal convidou-me a colaborar e pediu que lhe enviasse minha contribuição. Fiz isso com muita alegria e gratidão. Enviei várias contribuições que se encontram inseridas na Encíclica nos números 37/38 (Amazônia) e 145/146 (Povos aborígenes).

 

O silêncio e a oração

Estou convicto de que na nossa vida de padre e bispo há uma dimensão que nunca pode ser descuidada – a dimensão orante-contemplativa. Rezo a Liturgia das Horas todos os dias. Rezo também o terço, às vezes – em viagens especialmente – vários terços. Se descuidamos da oração, ficamos sem ânimo e coragem para levar adiante a missão. Em momentos difíceis, o que me ajudou sempre a levantar a cabeça foi a oração, a oração dos salmos, a meditação da Palavra de Deus, o rosário. A meditação da Sagrada Escritura traz sempre uma luz quando enfrentamos a noite escura de problemas e desafios.

Sem a mística que subjaz a todo o nosso ministério não vamos longe. Até nosso engajamento “político” fica capenga, insosso: político, é claro, no sentido correto da palavra como “a mais alta forma do exercício da caridade” como dizia Paulo VI.  Não são ideias filosóficas, sociológicas, antropológicas ou humanitárias que nos fazem avançar. A base e a força motriz de todo o nosso ministério é o Evangelho. E só posso deixar-me guiar pelo Evangelho se tenho o costume de meditá-lo e de fazer a avaliação de minha vida e do meu ministério a partir da Palavra de Deus. A oração, de fato, é determinante, deve ocupar uma parte significativa em nossa vida diária. Gosto imensamente do silêncio. Tenho uma tremenda aversão à zoada, algazarra e gritaria. Deus dotou-me de um ouvido muito afinado. Assim sofro extremamente com o barulho. Graças a Deus tenho em Altamira um cantinho onde posso curtir o silêncio. Também nas minhas viagens sempre acho um lugarzinho silencioso. Levanto bem cedo ou até de madrugada para, em silêncio absoluto, poder fazer a minha “hora santa”. Essa dimensão orante sempre me ajudou, tanto em questões de ordem pessoal, como as ligadas à missão junto ao Povo de Deus.

 

O bispo e seu povo

Não falo de uma mística no sentido intimista, tipo “eu com Jesus e Jesus comigo”, mas do amor que brota do encontro com Senhor na Eucaristia diária e na oração assídua e se concretiza no amor ao próximo, ao Povo de Deus. Posso dizer que o meu relacionamento com esse povo – especialmente os pobres – tem sido muito estreito e forte. Sempre gostei de meu povo. Amo esse povo. O povo tem suas fraquezas e falhas, mas, no fundo, é um povo bom. Sinto muito carinho pelas pessoas e elas também me tratam com muito afeição. Aonde chego, há manifestações afetuosas. É muito gratificante. Por um lado é a mística, o encontro com o Senhor que nos sustenta na missão, por outro, é o encontro com o Povo de Deus. São como as duas faces da mesma moeda.

Até com gente que não reza na nossa cartilha procurei sempre nutrir um relacionamento de respeito. Nunca fiquei com ódio daqueles que infernizaram a minha vida e são responsáveis pela proteção policial que fui obrigado a aceitar e tenho até hoje. Ódio nunca senti em minha vida.

Ás vezes, fui agressivo ao denunciar injustiças, abusos e violências e não medi palavras para acusar os inimigos do povo, especialmente dos povos indígenas. Ao longo dos anos nunca deixei de denunciar os responsáveis pelas injustiças, mas talvez tornei-me mais comedido nas expressões usadas nas denúncias e prefiro hoje apelar para os sentimentos das pessoas. Por exemplo no caso de trabalho escravo: “Você já imaginou alguém de sua família passar por uma experiência dessas?”

Em relação a Belo Monte fiquei num dilema. Num lado as decisões emanadas dos chefões em Brasília, por outro lado os engenheiros e operários que tocaram a obra. Muitos deles nem sequer estavam de acordo com o projeto e o modo como está sendo executado. Mas tiveram que se calar pois no caso de reclamação ou crítica perderiam o seu ganha-pão. Assim muitos engoliram Belo Monte em seco. Especialmente as esposas sofriam com essa situação esquizofrênica, pensando até que a Igreja “excomungou” todo pessoal que trabalhava em Belo Monte. De fato, todo mundo sabia que nunca aprovei Belo Monte, mas, mesmo assim, nunca cheguei a desprezar os engenheiros e trabalhadores com suas famílias. Celebrei diversas vezes a Eucaristia na vila residencial e participei com prazer de reuniões. Crismei grandes turmas de jovens e até adultos. Como acontece em todo canto, há sempre gente que gosta de tesourar a vida dos outros e difamar o próximo. Assim espalhou-se a notícia de que o bispo odeia as pessoas que trabalham em Belo Monte. Mas já nos primeiros encontros e celebrações, descobriram que tudo isso era mentira e difamação.

 

A prelazia hoje

Alto Xingu. Para se chegar lá, é necessário viajar de avião de Altamira para Belém – uma hora de voo. Depois, de Belém para Marabá – mais uma hora de voo. Em seguida, de carro, uma viagem de mais quinhentos quilômetros de estrada, em parte bastante ruim. Aí é que começa a visita às comunidades espalhadas num imenso território. Ourilândia e Tucumã são cidades gêmeas, distam apenas 8 km uma da outra. De Tucumã para São Félix do Xingu são cento e dez quilômetros. Conheci São Félix do Xingu em 1967 com mais ou menos mil habitantes. Em 1988 o município se desdobrou em três: São Félix do Xingu, Tucumã e Ourilândia do Norte. Os três municípios juntos têm hoje mais que 200.000 habitantes. O Alto Xingu já há tempo teria todas as condições de tornar-se uma nova diocese para assim diminuir as dimensões “continentais” da maior circunscrição eclesiástica do Brasil que é a Prelazia do Xingu.

Baixo Xingu. A última paróquia ao norte da prelazia é Gurupá, que já está à margem do rio Amazonas, após a foz do Xingu. De Altamira para Gurupá, dependendo da maré, são dezesseis a dezoito horas de barco. Daí para a última comunidade, ainda são mais oito horas de viagem. Porto de Moz fica entre Gurupá e Souzel. Há comunidades em Porto de Moz que distam da sede da Paróquia um dia e meio de viagem. São paróquias muito antigas: Santo Antônio de Gurupá – 1692, São Francisco Xavier de Souzel (hoje Senador José Porfírio) – 1750 e São Braz de Porto de Moz – 1756. Nestas paróquias 90 % das comunidades só se alcançam pela via fluvial.

Tenho sempre insistido que estas paróquias tenham o seu barco próprio com um mínimo de “conforto” (banheiro, chuveiro, fogão a gás e lugar para atar a rede). Viagens que levam dias e mais dias ninguém aguenta se forem feitas de canoa-rabeta ou de barquinho. O barco garante também um mínimo de privacidade. O povo é muito hospitaleiro e quando o padre ou o bispo chega, a educação exige “fazer sala” para ele. Quantas vezes queria ficar pelo menos uns minutos sozinho para rezar o breviário ou encostar a cabeça num caibro por perto e ficar em silêncio. Era impossível pois o povo não deixa. O pessoal se reveza. “Olhe o bispo está sozinho! Menino vai lá fazer sala pra ele!” grita a mãe que está na cozinha preparando a refeição. De fato, hospedar-se na casa de uma família significa privacidade zero.

Certa vez cheguei a uma comunidade na cabeceira de um rio, muito cansado depois de uma penosa viagem. O povo me recebeu com o carinho de sempre, cantando e me abraçando. Depois da reza de um terço recheado com meditações em torno de cada mistério, fui para a casa que me foi indicada. Atei logo minha rede pois não queria outra coisa a não ser dormir. Estava exausto. Mas, esse povo que vem para a visita do bispo não se encontra todos os dias e assim a conversa vai longe. Eu já deitado, logicamente sem poder dormir. Às vezes cheguei a cochilar um pouco. De repente alguém encosta na minha rede e pergunta: “Bispo, tá dormindo?”. Respondo brincando: “’tava”. Finalmente, já tarde da noite, as conversas param. A casa, toda cheia de redes penduradas, parece um navio. Em lugares estratégicos lamparinas de querosene fumaçam até raiar o novo dia. Crianças de vez em quando começam a choramingar pois estranham o lugar onde estão. Alguns filhos de Deus roncam a serrar um bosque inteiro, outros respiram ruidosamente. Um concerto noturno dos mais diversos sons, suspiros e sopros. Não é bem uma sinfonia, mas, mesmo assim, estou feliz da vida e dou graças a Deus porque finalmente posso dormir. Pretendia, refeito das fadigas da viagem, de manhã celebrar a eucaristia com esse povo tão bom e depois participar das reuniões de costume. Mas, por volta das quatro e meia da manhã, veio o dono da casa e colocou o radinho de pilha bem debaixo da minha rede, pois pensou: “O bispo precisa ouvir o primeiro noticiário do dia para inteirar-se do que acontece pelo Brasil e o mundo afora”. Naturalmente não reclamei pois sabia que é apenas mais uma manifestação de carinho para comigo. Continuei a cochilar até o povo começar a bocejar e espreguiçar-se nas redes. “Houve uma tarde e uma manhã” – outro dia.

  • A construção da Rodovia Transamazônica (BR 230), na sua maior parte até hoje sem asfalto, aumentou consideravelmente a nossa agenda pastoral. Até então as vias de comunicação eram somente os rios. A rodovia é a concretização dos slogans “Integrar para não entregar” e “Terra sem homens para homens sem-terra” da Ditadura Militar. Lembro-me muito bem da chegada do presidente Médici em 9 de outubro de 1970 que veio – como se escrevia na época – para presidir “a solenidade de implantação, em plena selva, do marco inicial da construção da grande rodovia Transamazônica”. A Folha de São Paulo relatou naquele tempo: “O presidente assistiu emocionado à derrubada de uma árvore de 50 metros de altura, no traçado da futura rodovia, e descerrou a placa comemorativa (...) incrustada no tronco de uma grande castanheira com cerca de dois metros de diâmetro, na qual estava inscrito: “Nestas margens do Xingu, em plena selva amazônica, o Sr. Presidente da República dá início à construção da Transamazônica, numa arrancada histórica para a conquista deste gigantesco mundo verde’” A placa não ficou lá por muito tempo. Foi roubada.

A rodovia foi planejada e construída em forma de espinha de peixe. Há a espinha dorsal Leste-Oeste e a cada cinco quilômetros uma vicinal em direção ao norte e ao sul de até mais de cem quilômetros cada uma e, é claro, sem pavimentação. As comunidades se encontram à beira-faixa e ao longo das vicinais. Hoje são várias paróquias e municípios: Anapu, Vitória do Xingu com Belo Monte, Altamira, Brasil Novo, Medicilândia, Uruará e Placas.

Aldeias Indígenas: Os povos indígenas do Xingu foram sempre a “menina dos olhos” da Igreja desde os primeiros contatos já nos séculos XVII e XVIII. Entre 1750 e 1752 o padre jesuíta Roque Hundertpfund foi o primeiro missionário a vencer as perigosas cachoeiras da Volta Grande do Xingu. Chegou a Tacuana (ou Tauaquara) e manteve o primeiro contato com os indígenas que habitavam a região que hoje é Altamira. Há um detalhe: esse padre Roque nasceu na província austríaca de Vorarlberg, terra natal de dom Eurico, Irmão Humberto e também minha. O trabalho dos jesuítas foi bruscamente obstruído pelas desastrosas leis de Marquês de Pombal. Em 3 de setembro de 1759, o Rei de Portugal, D. José I, decidiu declarar os jesuítas “notórios rebeldes, traidores, adversários e agressores...ordenando que como tais sejam tidos, havidos e reputados”. Resultado: foram expulsos do Brasil.

A prelazia procurou sempre defender os direitos dos povos indígenas do Xingu. Os Kayapó chamaram o padre Eurico (a partir de 1971 “dom Eurico”) de “pai”. Os Padres Xaverianos trabalharam uns anos em meio aos indígenas. Inseriram-se admiravelmente na realidade kayapó. Lamento que deixaram os Kayapó do Xingu e foram para outra diocese. Hoje é o padre Patrício (verbita) e o casal Cleanton e Nilda que estão à frente da pastoral indigenista no Xingu. Aguardamos a chegada de outros padres verbitas.

Tenho o privilégio de ser filho adotivo de Moiangri, mulher do cacique Kupatô. Como mãe, ela me deu o nome “Bep Pôiti” e exigiu que doravante a chamasse de “nhirwa” (mãezinha). Possuo assim a prerrogativa de chamar de “mamãe” a três mulheres: a Maria, minha mãe biológica, a Maria, Nossa Senhora, e a Moiangri, índia kayapó. Anos atrás, quando visitei este mesmo povo, um dos caciques me disse: "wajanga benjadjwyr rax kuben kêt, ôbikwa kumrêx" (O bispo não é um branco. Ele é nosso parente). Considero essa declaração o máximo título honorário que os Kayapó têm a outorgar.

No Xingu existem três troncos linguísticos: Macro-Jê (Kayapó e Xikrin), Tupi-Guarani (Juruna, Kuruaya, Xipaya: Assuriní, Araweté, Parakanã) Karib (Arara).

 

A Amazônia e seus desafios

Vivo desde os meus 26 anos na Amazônia e aí, no Xingu. Nunca trabalhei em outra região do Brasil. Se depois de mais de 50 anos de ministério – quinze anos como padre e trinta e seis como bispo – faço uma retrospectiva da vivência da Igreja nesta região o que mais me aflige e me aperta o coração são as inúmeras comunidades sem Eucaristia. Estou convicto de que precisamos encontrar uma solução. E com urgência urgentíssima!

O celibato é uma graça e não se trata de pôr em xeque o celibato como tal. Enquanto a nossa Igreja existir haverá sempre homens e mulheres a renunciar ao matrimônio por um amor maior “por causa do Reino dos céus” (Mt 19,12). O assunto não é estar a favor ou contra o celibato, mas sim a preocupação com a celebração eucarística, o memorial da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor! Jesus não deu um bom conselho, mas uma ordem: “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19; 1 Cor 11,24). Os documentos da Igreja estão cheios de reflexões bonitas sobre a Eucaristia. O Concílio Vaticano II fala da Eucaristia como “fonte e ápice de toda a Evangelização” (PO, 5). Na encíclica “Dies Domini”, o Papa João Paulo II diz que não há verdadeira comunidade cristã a não ser ao redor do altar. No caminho de Emaús, Jesus, ao explicar as Escrituras, fez arder os corações dos discípulos. Mas o encontro não terminou na estrada. Ele entrou com os discípulos na pousada “para ficar”. E foi exatamente na “fração do pão” que os discípulos o reconheceram (cf. Lc 24,13-35).

O problema é que a celebração eucarística é unica- e exclusivamente permitida se houver um padre celibatário à disposição. E, em toda a Amazônia, a escassez de padres continua alarmante. 70% das comunidades só podem participar da Eucaristia duas ou três vezes ao ano, às vezes nem isso. Quando vejo uma comunidade bem formada e organizada que todos os domingos se reúne para o culto dominical e às vezes até durante a semana para uma novena ou a reza do terço, aí me pergunto o que realmente impede a Igreja conferir a sagrada ordenação a quem há tempo preside a comunidade com tanto carinho, generosidade e dedicação. Está na hora de voltarmos, não tanto “à grande disciplina” preconizada pelo Concílio de Trento, mas às raízes da nossa Igreja. Por que motivos não pode ser retomado o que foi praxe nos primórdios da Igreja, no tempo dos apóstolos, nas comunidades que Paulo fundou, e durante séculos depois?

O papa Francisco me disse naquela audiência em abril de 2014: “Os bispos precisam fazer propostas corajosas!”. Ele realmente solicita às conferências episcopais que manifestem sua opinião. A nossa CNBB é chamada a dar sugestões ao Papa Francisco, propostas pelo menos ad experimentum.

Certa vez, numa das minhas viagens pastorais ao Alto Xingu, cheguei em uma comunidade que ao receber-me como de costume com cantos e abraços logo adiantou: “Dom Erwin, hoje o senhor vai benzer a nossa capela”, construída com todo esforço da comunidade. Estava tudo preparado como manda o figurino. O “portal” se encontrava fechado. Uma fita verde-amarela em forma de laço vedou a passagem da soleira. As duas pontas deveriam ser puxadas uma pelo bispo, outra pela catequista. Sob os aplausos do povo desatamos o laço e a porta foi aberta. Quando olhei para dentro da capela, vi na frente apenas um ambão. Aí não me contive e perguntei bem baixinho a catequista: “Minha filha, você não acha que está faltando alguma coisa?” “O que é que está faltando, dom?” sussurrou-me ela. “O altar, minha querida. A Eucaristia não é o centro de nossa fé?”. “Eu sei, dom Erwin, mas aqui nós temos Missa só duas ou três vezes ao ano. E quando o padre chega emprestamos uma mesa da escola como mais tarde vamos fazer e a cobrimos com uma toalha linda, bordada. Mas aos domingos não precisamos de altar. Só temos culto, a celebração da Palavra”. Dentro de mim soaram os sinos de alarme. E tive dificuldade de disfarçar a imensa tristeza que invadiu meu coração: mais uma comunidade sem Eucaristia. Contei essa história ao Cardeal Ratzinger quando ainda era prefeito da Congregação da Doutrina da Fé e ele me respondeu em alemão: “Bischof Kräutler, precisamos rezar mais pelas vocações!”. O posterior papa Bento XVI tinha obviamente razão. Precisamos pedir “ao Senhor da messe que mande operários para a sua messe” (Lc 10,2). Mas pensei comigo: será que a oração fervorosa para que Deus envie “operários à sua messe” nos dispensa de discernirmos e ouvirmos “o que o Espírito diz à sua Igreja” (cf. Ap 2 e 3) na escolha de quem possa receber a sagrada ordem para presidir a celebração eucarística, onde não há um padre celibatário?

Creio que a ausência da Eucaristia é uma das razões por que muitos católicos deixam a Igreja e passam para uma comunidade evangélica. Na realidade nas comunidades sem Eucaristia o povo não percebe mais a “diferença” entre católicos e evangélicos. Em ambas as comunidades só existe a “mesa da palavra”. A “fração do pão”, o momento sublime de “reconhecer” o Senhor e a comunhão do Corpo e Sangue de Cristo perderam a sua centralidade.

 E além disso os pastores crentes usam de todas as estratégias para conquistar o povo. Há um templo e um pastor em cada esquina, em cada comunidade do interior. Os pastores estão presentes. O padre está ausente. Só aparece raríssimas vezes e por poucas horas. Quantas vezes o povo me perguntou: “E agora, quando vem de novo?” Essa pergunta sempre me doía no coração. Respondi sempre: “Certamente o padre não vai demorar em visitar vocês!” Sabe-se lá quando!

Lembro-me de um episódio que nunca esqueci. Estava em visita pastoral na Transamazônica. No Km 120 há uma vila que já é uma pequena cidade. Sem padre residente! O padre mora em Medicilândia e vem uma vez por mês. É até um privilégio: uma vez por mês! Parei nesta vila a caminho de Uruará. Entrei na loja de uma família conhecida e pedi um guaraná pois estava morto de sede. Aí o dono do comércio me disse: “Dom, na rua aqui atrás tem um homem que está nas últimas. Certamente vai apreciar uma visita sua.” Bebi o guaraná e fui imediatamente à casa do moribundo. Chegando lá vi o seu Francisco deitado na sala, numa esteira, e dois homens empaletozados, um de cada lado, com a Bíblia na mão revezando-se em derramar citações sobre o pobre prestes a passar desta para a melhor. Pedi licença e ajoelhei-me ao lado de seu Francisco. Chamei-o pelo nome. Ele abriu os olhos e balbuciou: “Agora sim! É meu bispo!” Ainda agradeceu a presença dos pastores e disse: “Eu sou católico”. Comecei a rezar o Pai Nosso, a Ave Maria, o Glória ao Pai. O moribundo mexeu os lábios. Ministrei o sacramento da Unção dos Enfermos e rezei as orações de encomendação de agonizantes. Poucas horas depois seu Francisco fechou os olhos para este mundo. Quantos católicos por estas plagas têm a sorte de seu Francisco de o bispo ou um padre casualmente estar passando? A imensa maioria de nossos fiéis, ou morrem sem os sacramentos, ou então estão sendo assistidos pelo pastor que mora na vila e muitas vezes ainda exige do moribundo a “conversão” à comunidade evangélica.

Há décadas se fala em redistribuição de padres. Em algumas regiões do Brasil há padres até de sobra. O que falta é espírito missionário! Não se trata de os bispos enviarem “a pau e pedra” seus padres a terras longínquas. É o presbitério que deve acordar para a missionariedade além das fronteiras da diocese. Será que é tão difícil um padre doar três ou cinco anos à uma diocese carente na Amazônia? Estou convicto de que vai voltar à sua diocese com uma bagagem rica de experiência pastoral de doação missionária que edificará a própria diocese de origem. Precisamos de padres, religiosas e religiosos que ouvem o grito do macedônio: “Vem à Macedônia, socorre-nos!” (At 16,9) – Vem à Amazônia, socorre-nos! A Igreja do Xingu tem trinta padres, vários deles já acima dos 65 anos. Mas, mesmo se dobrasse o número de padres, as quase 800 comunidades nem de longe teriam celebrações eucarísticas regulares. “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às Igrejas!”. Precisamos ter a coragem de encontrar novos caminhos para suprir as necessidades das comunidades. Ouço o papa Francisco repetir com sua voz inconfundível: “Sean corajudos!”

 

As maravilhas do Senhor

O cântico mais lindo do Breviário é o Magnificat de Nossa Senhora: “A minha alma engrandece o Senhor e o meu espírito exulta em Deus, meu Salvador” (Lc 1,46-56). Tudo e graça!

Às vezes caímos na tentação de olhar a nossa vida a partir do que não deu certo. Uma retrospectiva desse tipo além de ser perigosa, pois pode causar depressões, é injusta. Tremendamente injusta! É uma visão unilateral e limitada. Precisamos relativizar as experiências negativas e lembrar muito mais as maravilhas que Deus operou através de nosso serviço, mesmo que seja sempre um serviço precário, insuficiente. “Somos servos inúteis; apenas cumprimos o nosso dever” (Lc 17.10). É Deus que nos chamou e Deus “sabe de que barro somos feitos” (Sl 102,14). Nossa vocação é tão bonita e vai se realizando pela graça de Deus. São Paulo dizia: “Pela graça de Deus sou o que sou: e sua graça a mim dispensada não foi estéril” (1 Cor 15,10).

Estou muito feliz por tudo que nestas décadas passadas pude, com a graça de Deus, realizar ou encaminhar com a ajuda de tanta gente boa. Agora, já completo um ano de emérito. Não carrego mais nos ombros o peso da última responsabilidade pela Prelazia do Xingu.

Canto também o Magnificat pelo sucessor que Deus escolheu: dom João Muniz Alves. Tive a graça de ordená-lo em São Luís do Maranhão no dia 5 de março de 2016. Em 3 de abril de 2016 tomou posse em Altamira. Foi uma linda festa que o povo do Xingu celebrou naquele dia. Fora do recinto festivo caiu uma chuva torrencial para significar as graças que Deus derrama sobre o Xingu e seu novo bispo.

Desde então moramos na mesma casa e nos entendemos muito bem. Continuo exercendo meu múnus episcopal, mesmo que não seja mais o titular da prelazia. Onde for chamado e convidado para celebrar ou dar palestras vou com muito prazer. Antes não conheci frei João, agora dom João. Mas, aquele gesto dele de me pedir que fosse o ordenante principal na sua ordenação episcopal foi de grande importância para mim e para todo o Povo do Xingu.

Dom João é mais um bispo negro no Brasil, dotado de uma grande facilidade de se relacionar com as pessoas. Nos primeiros meses quando ele visitou uma comunidade o povo perguntava por mim. É mais do que natural depois de meio século no Xingu e três décadas e meia de bispo. Mas, agora quando eu chego em qualquer lugar, as pessoas já me perguntam: “E como vai dom João?”. Assumi o papel de João Batista, primeiro de “preparar o caminho e aplainar as veredas” (Lc 3,4) para o novo bispo e depois de sua chegada no Xingu seguir o lema: “Ele é que deve crescer, e eu diminuir” (Jo 3,30).

“A minha alma engrandece o Senhor e o meu espírito exulta em Deus, meu Salvador” (Lc 1,46-47).

Amém.