Por Jucelene Rocha e Osnilda Lima

A noite da terça-feira (8) foi realizado o lançamento do 23º Grito dos/as Excluídos/as em Brasília (DF). Com o tema: “A vida em primeiro lugar” e o lema: “Por Direitos e Democracia a Luta é Todo Dia”, o evento reuniu cerca de 30 entidades: pastorais socais, movimentos populares, organismos da Igreja Católica, organizações religiosas e Igrejas Cristãs. 
O assessor da Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Social Transformadora da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), frei Olávio Dotto, inaugurou o lançamento do Grito dos/as Excluídos/as, no Distrito Federal.  O Dotto ressaltou o diferencial da diversidade de entidades e movimentos presentes no processo de construção do Grito que se realiza há 23 anos, em todo o Brasil, e culmina em um ato público no Dia da Independência, 7 de setembro. “Devemos, juntos, fazer o enfrentamento a tudo o que leva à exclusão. É preciso mostrar o rosto dos excluídos, dos que estão invisibilizados”, enfatizou. Já o vigário episcopal para Promoção Humana e Obras Sociais da Arquidiocese de Brasília, padre Carlos Henrique Silva Oliveira, sublinhou a importância de enfrentar o complexo momento sociopolítico do Brasil à luz da fé, da Palavra de Deus e lembrou o trecho do livro do Êxodo: “Eu vi a opressão de meu povo..., ouvi o grito de aflição diante dos opressores e tomei conhecimento de seus sofrimentos. Desci para libertá-los... E agora, vai! Eu te envio... para que faças sair o meu povo” (Ex 3, 7-10), e ressaltou que: “Somos homens e mulheres de fé, esperança e caridade e por isso devemos caminhar comprometidos com a dignidade, justiça e a defesa da vida.

As Igrejas e os movimentos populares – A integrante do Movimento Levante Popular da Juventude, Laura Lyrio (Juanita), enfatizou vínculo que existe entre os movimentos populares e os movimentos e pastorais da Igreja na construção cidadã que o Grito dos/as Excluídos/as tem gerado ao longo dessas duas décadas de realização. Lembrando a mística dos lutadores e lutadoras do povo, Laura destacou a frase de dom Tomás Balduíno: “Direitos humanos não se pede de joelhos. Exige-se de pé”. A jovem destacou ainda que na diversidade os grupos que dão vida ao processo de construção do Grito tem uma causa comum: “a luta popular e a luta pela vida é uma só luta, esse processo de resistência, de mobilização permanente é uma luta em defesa da vida e já realizamos muitas lutas por memória, verdade e justiça”, concluiu.
A secretária-geral do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs do Brasil (Conic), pastora luterana Romi Benck, ponderou o contexto no qual se insere a realização do Grito dos Excluídos nesses últimos anos. “Na América Latina, de modo geral, não temos mais democracia, temos o totalitarismo econômico, financeiro que pretende definir e decidir sobre nossas vidas”. Romi questionou que deus está regendo os parlamentares, pois há um ano, segundo ela, em nome de Deus se optava pela ruptura da democracia. E agora se votou pela permanecia da ruptura em nome da economia. “Então, qual é o Deus que está regendo a fé dos parlamentares? É o deus mercado!”.
A pastora ressalva que o Grito dos/as Excluídos/as “tem a característica de ser uma mobilização com forte motivação da espiritualidade e da fé. E nós nos movemos, reivindicamos e profetizamos aquilo que não vai bem. O espaço em que nós denunciamos tudo o que agride a vida”.  Ela lembra que o Grito é o espaço em que excluídos e excluídas do sistema se reúnem, se encontram e reivindicam transformação. E questiona que no contexto do Grito, qual seria o grande desafio quando se fala em direito e democracia? “Talvez a gente poderia pensar em uma das grandes mensagens do Evangelho: de que nós somos livres para dizer não ao totalitarismo. 
Benck ainda desafiou as entidades e organizações populares a pensar em caminhos de desobediência como resposta a esse momento de forte repressão e graves ataques a direitos já conquistados. “É importante que a gente tenha e fale da desobediência, porque dentro das Igrejas falamos em obediência, só que a obediência no sentido que a gente entende aqui ela é autoritária e agora não precisamos de nenhum tipo de autoritarismo. A gente precisa redescobrir a liberdade e a nossa capacidade de desobedecer a esse Deus do mercado que está querendo condicionar as nossas vidas e que se alimenta do corpo e do suor de trabalhadores e trabalhadoras, que se alimenta da violência que mata e dizima mulheres, povos indígenas, LGBTs, juventudes… então nós temos uma grande tarefa nesse Grito que é a de denunciar a idolatria praticada pelos fundamentalistas de mercado. Talvez ao invés de ficar debatendo se teremos ou não eleições no próximo ano, devêssemos assumir a nossa coragem e anunciar a desobediência, uma desobediência que talvez nos faça acordar e identificar caminhos alternativos que nos conduzam a novas formas de organizar a vida e conduzir a nossa existência. Temos um caminho árduo pelo frente, como por exemplo, revogar as medidas que atacam os direitos de trabalhadores e trabalhadoras. Quem disse que temos que aceitar essas medidas? Pensar nesses caminhos de desobediência é o nosso grande desafio!”, concluiu.
Endossando a fala da pastora Romi, o secretário executivo da Cáritas Brasileira, Luis Claúdio Mandela, destacou que a sociedade brasileira não está desanimada, está descrente nas instituições. “Não temos Legislativo, não temos Executivo, nós perdemos completamente a fé, precisamos perder agora o medo do Judiciário. Quando as instituições não funcionam a desobediência civil é o caminho”, constatou.