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Entrevista

Antropóloga Lux Vidal: “Não se paga com milhões a morte de um rio”

Antropóloga Lux Vidal: “Não se paga com milhões a morte de um rio”

por José Cícero da Silva, Naira Hofmeister - A Pública Quem são os Xikrin? Lux Vidal - O povo Xikrin é um povo Caiapó. Todos os Caiapó se autodenominam Mebêngôkre. Então, são Mebêngôkre os Xikrin. Eles são um dos diferentes povos [Caiapó], que são muitos. Os Xikrin são os que estão entre os rios Xingu e Itacaiúnas. Os outros, que estão do outro lado do Xingu, são os Gorotire, os Mekrãnoti, os Kuben-Krân-Krên, os Metyktire, os Kararaô, também grupos Caiapó, e os Xikrin do Bacajá, que estão perto de Altamira e agora estão sendo atingidos por Belo Monte; eu me ocupei também da demarcação de terras deles. Especialmente porque, quando os Xikrin de Cateté começaram a entrar em negociação com a Vale do Rio Doce e a receber um certo dinheiro, os do Bacajá queriam vir também para Cateté, o que teria sido um desastre, né? Então, foi importante a demarcação do Bacajá também. Os Xikrin de Cateté, eu segui todo processo de recuperação deles depois dos gateiros e madeireiros. A volta dos jovens que estavam espalhados na região, que fizeram a aldeia circular, a aldeia redonda, retomaram os seus rituais, as pinturas corporais. [Desde que eles voltaram para a terra deles], o grupo foi se recuperando, tanto que hoje são quatro aldeias. Desse ponto de vista, se recuperaram.   E a senhora acompanhou esse processo de recuperação? Lux Vidal -Sim, de demarcação das terras e da luta contra as madeireiras. Eles sofreram muito com isso aí. E também segui as primeiras relações com a Vale do Rio Doce. Como foi? Lux Vidal - Foi um pouco difícil, mas foi pacífico, né? [A Vale] não estava dentro da área, mas, como estava colada, houve umas compensações para eles. Mas ainda não havia o níquel, [depois] a questão se agravou. E naquela primeira época a Vale ainda era uma estatal; então, em um certo sentido, ainda dava para conversar. Mas, enfim, a gente trabalhou muito, e a gente nunca pensou que chegaria ao ponto em que chegou agora, né? Porque, de repente, o Cateté já era. O fato é que fizeram análises e realmente o rio está poluído. É que o Cateté não é um rio grande, está comprometido, as cabeceiras, tudo. Já naquela época [quando trabalhava com os Xikrin], geólogos, especialmente geólogos canadenses que eu conheci, me falaram: “Olha, Lux, essa área aí a oeste é uma área pensada para níquel. Níquel é a pior das coisas que pode acontecer. É o minério mais poluente, o mais letal que pode existir. Não se pode entrar em contato de jeito nenhum com os dejetos do minério de níquel”. O que eu penso é que os índios nunca se deram conta a que ponto isso poderia ser grave. E pode ser que eles aceitaram alguma compensação da Vale, como foi para o resto. Mas nunca isso poderia ter acontecido. Não se pode deixar à compreensão de pessoas ou de um povo a decisão sobre coisas tão graves. Eles nunca deveriam ter colocado essa mineração aí tão perto, a gente não tem realmente o controle sobre o que pode acontecer. Porque as mineradoras lá vão dizer que está tudo bem, mas nós já vimos no rio Doce o que aconteceu. E pode acontecer a mesma coisa em Xikrin. E eles têm essa relação de subsistência com o rio e também em uma dimensão simbólica, não é? Lux Vidal - A subsistência deles realmente é caça e batata-doce. E também palmito, os frutos assim do mato, coletam castanha para vender. Antigamente eles ocupavam o território deles em diferentes momentos do ano em busca das matérias-primas de que eles precisavam. Eles iam para o norte quando chovia, coletavam castanhas a oeste, e durante o verão passavam dois, três meses no rio Seco, no sul, e faziam caça de pássaros para as penas, o que hoje é proibido, para o artesanato deles. Eles são um povo que faz uma plumária lindíssima, muito bonita. Toda a mitologia deles é muito rica, os rituais deles também são lindos. Os nomes das pessoas sempre se referem a peixes ou a outros elementos da natureza. E a pintura corporal era uma coisa importantíssima e também relacionada aos peixes. Ela teria sido dada pelos invisíveis, pelos sobrenaturais. E as pinturas corporais fazem referência aos peixes? Lux Vidal - O desenho básico mesmo dos Xikrin são espinhas de peixe. Isso você tem em muitos povos indígenas, né? Realmente os peixes são muito aproveitados tanto na mitologia quanto na ornamentação, como em outras narrativas também, no contato dos humanos com os animais. Porque esses seres da natureza são vistos como gente também no mundo deles. Então, a relação era muito próxima, especialmente durante os rituais. Então, nesse sentido o rio já é importante, a água já é muito importante. Mas os peixes têm realmente uma posição absolutamente central na vida, na subsistência e nas crenças e rituais da mitologia. Tudo isso está muito articulado entre si. Existe essa ação jurídica para ter uma compensação financeira por conta dos problemas de subsistência, de falta de alimento, de ter uma alternativa de sustentabilidade… Lux Vidal - Sim, mas não pode ter alternativa. É essa a minha a posição, entendeu? Não pode é envenenar o rio, porque você envenena as pessoas. Você não paga com milhões a morte de um rio, não dá. Isso tem que parar.   A senhora acha que este momento que eles estão vivendo é crucial? Porque não é o primeiro desafio que eles enfrentam. Lux Vidal - Ah, sim, não é o primeiro, mas é o mais grave. Porque, se o rio está envenenado, o que eles vão fazer? Esse rio atravessa [as aldeias], eles tomam banho, eles bebem daquela água, eles pescam naquela água, as crianças brincam lá dentro. Não tem adaptação a uma coisa dessa. Não tem. Pode ter água encanada, cesta básica… Cesta básica, pelo amor de Deus, é o pior que pode acontecer! A cesta básica tem uma alimentação que não é feita para os índios. O bom para eles é a agricultura deles, é a vida deles, é o que eles comem. Eles comem peixe, comem farinha, comem batata. Enquanto o índio tem a caça, tem o peixe, tem a farinha de mandioca, a batata-doce, umas frutas que tem por aí, é a melhor dieta do Brasil. Cesta básica vem o quê? Vem macarrão, vem açúcar, as piores das coisas. Não, não tem cesta básica de jeito nenhum, não é disso que se trata. Não é uma saída para o problema lá deles de jeito nenhum. Então a solução seria a mineradora parar as atividades? Lux Vidal - É. Eu não acredito que eles controlem isso aí, não controlaram até agora. Depois especialmente do que vimos lá com a Vale do Rio Doce, imagina, pode acontecer a mesma coisa. O Ministério Público acredita que é possível estabelecer um parâmetro de controle mais rigoroso e manter a operação. Entendi. Tudo bem, eles falam isso, eu não sou obrigada a acreditar. Eu acho que os Xikrin agora entenderam. Porque viram, porque veem a coisa. Às vezes, falar não adianta muito. Eles acham “bom, falam, falam, mas a água está aí, o peixe está aí”. Mas, quando a coisa acontece mesmo, e do jeito que eu vi nos vídeos eles falarem, quer dizer que eles estão se dando conta de que a coisa realmente está pegando aí.   E como a senhora acha que o Estado brasileiro tem atuado com relação aos povos indígenas de uma maneira geral e, especificamente, com os Xikrin? Lux Vidal - Ultimamente, por exemplo, as demarcações das terras estão paradas. O que acontece é que nós temos no Congresso uma bancada ruralista muito agressiva e que se aproveita também da fraqueza desse governo, na verdade, para realmente entrar de maneira mais agressiva contra os povos indígenas, com atitudes contrárias, completamente contrárias, aos povos indígenas. A bancada evangélica também é muito forte nesse sentido. A situação com relação aos povos indígenas atualmente não está boa. Tem povos que sofrem muito. Os Guarani, por exemplo, de Mato Grosso. A gente está com medo de um retrocesso realmente. Isso não quer dizer que, devido ao próprio protagonismo indígena, às próprias organizações indígenas, e também devido às organizações não indígenas a favor, as ONGs a favor da causa indígena, não tenha havido progressos nas últimas décadas. Mas nunca definitivo, sabe? Sempre dependendo ou de um governo, de uma pessoa. Não é uma coisa definitivamente estabelecida. A Constituição de 1988 é muito favorável aos índios. Então, eles tiveram reconhecido o usufruto de seus territórios, o uso de suas línguas, de sua cultura, de ter uma educação bilíngue, as escolas indígenas. Então, muitas coisas foram conquistadas. Teoricamente. A Constituição é uma coisa, na realidade a coisa… mas aos poucos também se avançava. Agora eu acho que tem um retrocesso porque essas forças anti-indígenas sempre existiram, mas não com a força e a visibilidade que elas têm atualmente.   Naquele momento inicial, tinha essa questão toda de resgatar a própria população mesmo, mas como era o trabalho de vocês lá? Lux Vidal - Bom, para mim, a demarcação. Então, percorrer todo o território com os índios, saber absolutamente tudo sobre o território, aonde eles vão, o que eles fazem, o que eles cultivam, quais são os recursos naturais, tudo que se precisa saber para poder fazer, sustentar uma demarcação. Dentro do possível. Mas tudo foi feito com eles, e até as discussões em Brasília – isso ainda era durante o regime militar –, sempre com os índios. Porque antigamente eles iam muito mais longe. Eles foram encontrados pela primeira vez, na época da pacificação, lá em Conceição do Araguaia. Eles iam até Altamira, onde tem os outros Xikrin. Eles iam muito ao norte também. E até a Carajás eles iam, porque Carajás era tudo, não tinha nada. Eu conheci Carajás, que é uma das maiores minerações do mundo [extração de minério de ferro da Vale inaugurada em 1985], eu conheci sem nada. Tinha só no topo aí, tinha como se fosse uma pista, mas era só do ferro mesmo da montanha, onde o avião pequenininho podia pousar porque não crescia nada. Eu conheci aquilo lá do zero. Então, naquela área eles conheciam, e também uma área mais ao sul do rio Branco. É claro, para demarcação, não se conseguia fazer tudo, né? Então, você tem Vale do Rio Doce aqui com o ouro, ao norte, o cobre, aqui o níquel. E no sul tem a estrada, que também fez muito estrago. Eu conheci aquilo lá tudo floresta. Agora, fora da área indígena, está tudo desmatado, tudo desmatado. Então, [os índios] estão muito presos em uma reserva, mesmo. Porque o que você destrói fora tem a sua influência dentro também. Você destrói tudo ao redor. Você vê no Xingu, agora pega fogo, né? Xingu pega fogo? Uau.   E essa relação com a mineração? Como os indígenas receberam a mineração nessa localidade? Lux Vidal - A mineração não estava dentro da área indígena. Só que ela estava bem na beira, e, por eles estarem a 50 quilômetros da ferrovia e do projeto da Vale, ela tinha que dar compensações. Porque não foram só os Xikrin, foram também os Gaviões, foram os Suruí, foram os Guajajara. Todos esses povos também receberam indenização [da Vale], e os Xikrin a mais porque eles são os que estão mais perto. Porque têm influência. Então, eram 50 quilômetros de um lado, 50 do outro lado da ferrovia. E a senhora tem planos de voltar à Terra Indígena? Lux Vidal - Ah, eu sempre tenho planos de voltar, mas é que eu trabalho muito no Oiapoque e na fronteira com a Guiana Francesa, lá com quatro povos: os Palikur, os Galibi-Marworno, os Galibi-Kali’na e os Karipuna. Isso desde os anos 1990. São povos que já passaram por tudo porque eles estão na fronteira, aonde os invasores chegaram primeiro. Então, são séculos de contato lá. Então, é muito diferente porque o contato dos Xikrin com a sociedade não indígena e com todos esses problemas de empresas e madeireiras foi muito brutal, foi realmente de uma maneira muito drástica, né? Sem muito tempo de pensar e de se acostumar. Isso foi muito grave para os Xikrin, foi muito grave para eles. Foi muito rápido, ter que assimilar coisas totalmente diferentes. A senhora nota marcas disso nos Xikrin de agora? Lux Vidal - Ah, agora já estão mais acostumados. Têm escola, têm tudo. Isso, a escola, não tinha nem começado quando eu estava lá. A Funai estava experimentando um pouco, mas não tinha. Quando eu cheguei lá, eles eram monolíngues. No Oiapoque é diferente: três séculos que eles falam português, falam francês também, porque aquela região era francesa. Eles falam patuá, falam crioulo, muito misturado. É uma situação totalmente diferente. Então, você tem também no norte da Amazônia essa situação. Os Xikrin não, os Xikrin são um povo isolado, no Brasil Central, bastante isolado, e realmente as mudanças chegaram muito, muito rapidamente. Com reações meio surrealistas às vezes. Mas é isso aí. É interessante porque a gente fala de um modo geral dos índios da Amazônia, mas… Lux Vidal - Ah, não, a diversidade de situação é muito grande. Claro que todos os povos indígenas têm algumas coisas em comum, que é um tipo de vida que geralmente se leva, a relação com a natureza, e também a relação com os outros mundos, com o sobrenatural, que para eles é uma coisa muito real e muito próxima. Através dos sonhos, através do xamanismo. Eles têm uma relação com o sobrenatural muito diferente da nossa, uma filosofia muito diferente da nossa nesse sentido. Isso é muito importante, isso você tem com todos os povos. Então, tem uma coisa realmente ameríndia. Agora, as situações, como cada um vive essa situação, digamos, como cada um vive essa relação com a natureza, com a sobrenatureza, ela difere muito de cultura a cultura. E difere ainda mais hoje em dia, que as mudanças são muito rápidas. Então, essas situações também não são só rápidas, elas são também muitas vezes erráticas, entendeu? Contraditórias, também. Às vezes melhora um pouco, às vezes piora.   Seus filhos trabalham também com indígenas. Foi por que a senhora os levava em suas viagens quando crianças? Lux Vidal - Minha filha é bióloga, ela foi comigo e foi fazer o trabalho dela lá. E até hoje ela é consultora de assuntos indígenas. Ela levou um neto também uma vez. Meu filho também foi uma vez, mas é artista plástico. Ele trabalha mais com os Suruí, em Rondônia. Mas a minha casa estava sempre cheia de índios. Então, desde criança eles estavam habituados, né? E como nós somos estrangeiros, não tem família aqui. Não tem avós, não tem tios, não tem nada. O que tinha era nós e os índios. Hoje a senhora trabalha no Oiapoque. A relação é parecida com a que desenvolveu com os Xikrin? A senhora tem parentes no Oiapoque também? Lux Vidal - Não, lá no Oiapoque, a relação já é diferente. Quando nós chegamos lá, a terra já tinha sido demarcada… E lá eu era uma pessoa entre tantas outras, entendeu? É muito diferente da situação quando cheguei no Xikrin, que eu tive que morar lá na casa deles e viver a vida com eles. E, se você faz a vida com eles, você tem que entrar numa relação de parentesco, porque senão como é que você come? Onde é que você fica? Quem se preocupa com você? Quem é que você é lá dentro? Isso já mudou, a relação hoje é diferente. Agora, o trabalho que eu estou fazendo no Oiapoque é, na realidade, a capacitação dos índios para eles mesmos fazerem as suas pesquisas, montarem as exposições e também serem os autores de suas publicações.
Dom Cláudio Hummes: “Os povos indígenas devem participar do Sínodo do melhor modo possível”

Dom Cláudio Hummes: “Os povos indígenas devem participar do Sínodo do melhor modo possível”

Por Luis Miguel Modino   O Sínodo da Pan-Amazônia tem-se tornado um dos elementos mais comentados tanto dentro como fora da Igreja Católica. A Encíclica Laudato SÌ, em que o Papa Francisco faz um chamado a viver desde uma ecologia integral, foi um pontapé inicial na reflexão, o que tem provocado novos enfoques tanto eclesiais como sociais. Uma da vozes que podem ressoar com maior força nesse Sínodo é a do Cardeal Dom Cláudio Hummes, o mesmo que ao ser escolhido o atual Papa, disse ao Cardeal Bergoglio que não esquecesse dos pobres, o que na opinião de muitos foi motivo para a escolha do nome do santo de Assis. O Cardeal Hummes é Presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), que “quer articular o Povo de Deus na Pan-Amazônia”, tudo a partir “da história e identidade dos povos da Pan-Amazônia e de sua realidade ambiental”. Nesta entrevista dom Cláudio faz uma apresentação do que é a REPAM, da sua gêneses, objetivos e modo de fazer realidade o trabalho evangelizador, que tem como ponto de partida “a grande preocupação que a Igreja tem hoje de ser uma Igreja com rosto amazônico”, que procura novos caminhos para “ser Igreja missionária nessa região”. Uma missão que não se ocupa só “das questões religiosas, senão de tudo o que faz parte da dimensão socioambiental, política, econômica, como aparece na Laudato SÌ”, e que tem “opção preferencial pelos pobres” e  especial preocupação “pelos povos indígenas originários dessa região”. Nesse contexto, reconhece que o Sínodo “é de uma importância fundamental, histórica, pois a Amazônia está passando por um momento em que está definindo seu futuro”, situação diante da qual se faz necessário mostrar como “se posiciona a Igreja”. Desde aí, o Presidente da REPAM, crê que “o Sínodo vai nos dar um novo impulso, maior valentia, novas linhas, caminhos, métodos para trabalhar dentro daquela área”. Ao mesmo tempo, o Sínodo vai ajudar a “buscar novos caminhos, novos métodos de evangelização, como é que a Igreja de hoje pode de fato definir novos métodos de trabalho”. Para isso espera que seja discutida a “estrutura pastoral, de presença de ministros ordenados junto da população, pois há uma grande falta de ministros ordenados junto da população”. Por isso afirma que “esses ministros têm que ser provenientes da própria população. Sem isso, a Igreja não vai ter terminado seu trabalho de missão propriamente dita, enquanto não tenha clero da região, clero indígena, ribeirinho, que vive com seu povo, que em sua cultura vive o Evangelho”.   Qual é a importância do Sínodo para a Igreja e a sociedade da Pan-Amazônia? Dom Cláudio Hummes - É de uma importância fundamental, histórica, pois a Amazônia está passando por um momento em que está se definindo seu futuro. O Papa Francisco veio com a Laudato Si, que ajudou ao mundo, mas sobretudo a nós cristãos a pensar mais concretamente sobre o sentido da Amazônia, sua missão, sua vocação, nem só como Igreja, senão também como região, como área socioambiental. O Sínodo convoca à Igreja dessa grande região, que são nove países para que pense, reflita, faça um novo discernimento sobre a questão da Amazônia como realidade ambiental, ecológica, socioambiental, climática, toda essa grande problemática em relação àquilo que a Igreja crê e é, em relação com o Evangelho, com Jesus Cristo. Como é que se posiciona a Igreja diante desse grande momento histórico da Amazônia. Ao mesmo tempo, o Sínodo vai dar um novo impulso, maior coragem, novas linhas, caminhos, métodos para trabalhar dentro daquela área. Com aquilo que João Paulo II diz, com novo ardor missionário. Uma Igreja que reflete sobre a dimensão missionária com novo ardor, métodos e expressões. O Papa Francisco colocou como objetivo do Sínodo, novos caminhos para a evangelização da Amazônia. Desde onde podem ser enfocados esses novos caminhos? Dom Cláudio Hummes - Sobretudo a partir daquilo que ele mesmo nos diz na Evangelii Gaudium, como ser uma Igreja missionária hoje, como ser uma Igreja misericordiosa, como ser uma Igreja pobre e para os pobres. E depois na Laudato Si, como ser uma Igreja que de fato leva a serio e vive com seriedade e age dentro da problemática socioambiental do mundo atual e de modo especial da Amazônia.   Significa por tanto, buscar novos caminhos, novos métodos de evangelização, como é que a Igreja de hoje pode de fato definir novos métodos de trabalho, a presença da Igreja entre os povos indígenas, entre os ribeirinhos, entre os povos originários. A Igreja está suficientemente entre esses povos? A partir da estrutura da Igreja, ela consegue fazer isso ou ia ser necessário mudar algumas estruturas, alguns métodos de trabalho para que possa caminhar e viver junto com o povo, defender aquele povo? Dom Cláudio Hummes - A Igreja católica foi estruturada tradicionalmente a partir do ministério ordenado. Na Amazônia, diante do pouco clero e o grande número de comunidades, como resolver esse problema atualmente, como conseguir fazer realidade um novo modo de ser padre ou presença eclesial nas comunidades da Amazônia? Isso é o que sínodo provavelmente, a gente acredita, vai discutir. Desde meu ponto de vista deve  discutir toda essa estrutura pastoral, de presença de ministros ordenados junto com a população, pois há grande falta de ministros ordenados junto da população. Ainda mais, esses ministros têm ser provenientes da própria população. Sem isso, a Igreja não haverá terminado seu trabalho de missão propriamente dita, enquanto não tenha clero da região, clero indígena, ribeirinho, que vive com seu povo, que em sua cultura vive o Evangelho.   Um clero que pode ter caraterísticas diferentes das atuais na Igreja católica? Podemos falar de “viri probati” ou de outras situações que podem fazer parte da Igreja da Amazônia? Dom Cláudio Hummes - Falo exatamente que esses são temas que estão sendo trazidos para que eventualmente sejam discutidos. É o Sínodo quem vai decidir s e vai discutir e de que forma vai discernir essas interpelações. Nesse sentido, podemos dizer que o Papa Francisco tem mostrado à Igreja que não podemos ter medo de discutir as diferentes problemáticas? O Papa diz aos bispos no Brasil que apresentem propostas corajosas.   Qual deve ser o papel dos povos indígenas no Sínodo? Dom Cláudio Hummes - Devem participar da melhor forma possível. Está claro que é um Sínodo de bispos e serão eles quem vai ter voto, mas é um trabalho que vai ser realizado com outros que não sejam bispos, seja padres, leigos, especialistas. Nesse caso, como vai suceder com o Sínodo dos jovens, onde se supõe que vai ter um bom número de jovens participando de algum modo, do mesmo modo também se espera que muitos indígenas possam estar participando diretamente.   O senhor é o Presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica. Qual é a proposta da Rede? Dom Cláudio Hummes - É uma Rede Eclesial, e com isso queremos dizer que é um serviço que quer articular o Povo de Deus na Pan-Amazônia, nos nove países que têm região amazônica, profundamente identificado com a história e identidade dos povos da Pan-Amazônia e de sua realidade ambiental. Que identifica tudo aquilo que são as atividades, as organizações que trabalham com esse grande objetivo da evangelização da Pan-Amazônia dentro da realidade e perspectiva amazônica socioambiental, cultural, daqueles povos.   Como a Repam está sendo articulada? Dom Cláudio Hummes - Articular para que ninguém se sinta isolado, para que nenhuma diocese, nenhuma instituição, nenhuma iniciativa, nenhuma comissão, nenhum projeto de trabalho sinta-se isolado. Tudo segundo aquilo que o Papa nos diz na Laudato Si, que tudo está interligado. Queremos ajudar a construir essa rede, que todos se sintam interligados, num serviço que quer estar muito próximo da base, do povo, daquilo que realmente sucede, para apoiar, articular com outros, as vezes até para consolar, para caminhar juntos, para encorajar. Além de articular, quer ajudar a que ela funcione como rede, estimular esse espírito em rede, para que todos, de fato, comecem a trabalhar cada vez mais juntos, se escutar e apoiar uns aos outros. E juntos discernir o caminho que deve se seguir.   Como foi surgindo a REPAM? Dom Cláudio Hummes - Aos poucos foi-se dando um contato maior dentro da Amazônia, entre bispos de ambos lados da fronteira, começando um trabalho e uma toma de consciência de que é preciso criar algum modo, algum serviço mais organizado de trabalho conjunto. Nessa relação nascida dos encontros de fronteira surgiu essa idéia de um serviço específico, que foi criado em 2014, em Brasília. Foi levada imediatamente a Roma essa criação, foi apresentada ao Papa, estava comigo Dom Pedro Barreto, Arcebispo no Peru, Vice-presidente da REPAM. Foi algo que ele já conhecia, mas ao apresentá-lo oficialmente ele ficou muito feliz e cheio de esperança, nos dando coragem para continuar trabalhando. Até hoje constantemente pergunta e se interessa pela Amazônia, pela REPAM, pela atividades.   Como REPAM está caminhando nesse tempo? Dom Cláudio Hummes - A REPAM inclui quase cem dioceses e prelazias. Por isso, no início nos perguntávamos se isso ia funcionar, uma rede tão grande, com tantas coisas implicadas, querendo abraçar o mundo. Tínhamos medo, receio que isso não fosse conseguir criar raízes, mas fomos com confiança, meditando que devia ser um kairós de Deus, muito mais agora com o Sínodo, e que Deus estava presente nesse nascimento dessa rede. Tudo partindo da grande preocupação que a Igreja tem hoje de ser uma Igreja com rosto amazônico, que deve se renovar partindo de um novo discernimento sobre como ser Igreja missionária na região. E não só uma Igreja missionária que se ocupa só das questões religiosas, senão também de tudo aquilo que faz parte da dimensão socioambiental, política, econômica, como aparece na Laudato Si, que é uma espécie de Carta Magna, como também a opção preferencial pelos pobres é o grande princípio, pois nossa preocupação, sem nenhuma dúvida, são os povos indígenas originários dessa região, junto com os ribeirinhos, quilombolas, também nas periferias das grandes cidades, onde já existe o fenômeno do índio urbano, com todas suas problemáticas.   Qual é o modo de organização da REPAM? Dom Cláudio Hummes - Para poder funcionar surgiu a idéia de criar eixos temáticos: o primeiro é povos indígenas, para se ocupar de seus direitos, órgãos, injustiças cometidas, sua evangelização, direitos, demarcação de terras. Em segundo lugar a formação e pastoral, formar agentes locais, seja em termos missionários e religiosos, mas também em outra áreas, como direitos humanos, com um curso da Universidade Católica do Equador, para as comunidades indígenas formar agentes que possam assumir os trabalhos, fazer o levantamento quando, por exemplo, há uma violação dos direitos humanos. Que sejam eles mesmos quem leva isso para os tribunais, que assumam sua história, que tenham o direito e o espaço suficiente para que sejam sujeitos, protagonistas de sua própria história. Formação em pastoral, que tipo de pastoral fazer nessas áreas, porque a Igreja  percebeu que ali é necessária uma pastoral diferençada, uma Igreja com rosto amazônico significa que não é igual com a de outros locais. O terceiro eixo é o dos direitos humanos, que é uma das grandes chaves, das grandes tristezas desses povos, a violação de seus direitos humanos, de povo, de autodeterminação, a terra, educação, segurança. Outro eixo é alternativas de desenvolvimento, precisamos de outros modelos de desenvolvimento, que não seja o modelo capitalista opressor e explorador, senão buscar alternativas, outros modelos de desenvolvimento que respeitem a realidade socioambiental dessa região amazônica. Como diz o Papa aos bispos do Brasil em 2013, na Jornada Mundial da Juventude, falando da Igreja na Amazônia, ela não deve ser como aqueles que vão e enchem o bolso de dinheiro explorando e extraindo e depois vai embora deixando degradação, miséria e o povo de lá não recebe absolutamente nada. A Igreja vai defender o povo, estar junto dele, caminhar do lado. O quinto eixo é as Igrejas de fronteira, como fazer alguns encontros especiais de discussão e discernimento, porque a Amazônia é muito diferençada tanto na sua história como em seus povos. Mas ao mesmo tempo existe uma grande parte de coisas comuns. O sexto eixo é a comunicação, aspecto fundamental para criar rede e espírito de rede e fazer funcionar a rede. O sétimo eixo são as redes internacionais, pois existem muitas agências internacionais católicas que têm grande interesse em que a Amazônia não seja perdida, depredada, senão preservada dentro de novos modelos de desenvolvimento. São redes que nos apóiam e que de algum modo fazem parte da REPAM, mesmo sendo agências. Nos ajudam economicamente, mesmo querendo trabalhar com os menores custos, seguindo o exemplo de uma Igreja pobre, para os pobres e com os pobres, e também com assessoria técnica. Finalmente o mapeamento e a investigação, um comitê que faz mapeamento da realidade pan-amazônica. A Igreja e a sociedade precisam um grande mapa, que não vai servir só para a REPAM, senão para as universidades. Um aspecto que já está se fazendo em parceria com algumas universidades católicas.   Como discernir o caminho que deve ser seguido? Dom Cláudio Hummes - O Papa tem convocado um Sínodo para a Pan-Amazônia, aos bispos que vivem nessa região. Alguns episcopados sempre diziam que estavam de costas para a Amazônia, elaborando muito pouca coisa a partir do fato de que a Amazônia é uma grande região que tem necessidades próprias, que exige um evangelização diferenciada. No caso do Brasil durante muito tempo ficamos ignorando a Amazônia, mas aos poucos, faz 42 anos que sou bispo, e conheço  um pouco sobre a relação da Conferencia com a Amazônia nesse tempo, foi se despertando a consciência o episcopado brasileiro em relação a nossa Amazônia. Depois da Campanha da Fraternidade de 2002 foi criada uma comissão de bispos para a Amazônia para fazer estabelecer um contato e manter viva a preocupação e solidariedade da Igreja do Brasil em relação à Amazônia.