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Frei Henri Burin des Roziers faleceu hoje (26), às 14h30, horário de Paris

Frei Henri Burin des Roziers faleceu hoje (26), às 14h30, horário de Paris

Por Felício Pontes*   Contemplar a árvore todo dia é o exemplo de realização e libertação total A região do Bico do Papagaio ficou conhecida nas décadas de 1980 e 1990 como uma das mais violentas do País. Está situada na Amazônia, onde hoje é a divisa dos estados do Pará, Tocantins e Maranhão. Era a região do trabalho escravo, dos assassinatos dos trabalhadores rurais, da grilagem de terra, do desmatamento desenfreado e da Guerrilha do Araguaia. Tudo começou durante a ditadura militar – anos 1970. Com o trauma da guerrilha, o governo militar resolveu estimular o que acreditava ser o “desenvolvimento” da região. Levou para lá empresários do Sul e Sudeste, abrindo o cofre de três financiadores públicos – Banco do Brasil, Banco da Amazônia e Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam). Esse “desenvolvimento” estava baseado em duas atividades básicas – madeira e pecuária. Num primeiro momento o ataque aos recursos florestais era realizado pelos madeireiros. O resultado foi trágico: o esgotamento do recurso natural. A terra, sem mais utilização para madeireiros, era vendida aos fazendeiros que colocavam abaixo o restante da floresta, considerado, literalmente, um obstáculo a ser derrubado. Em seu lugar plantavam capim. Os madeireiros, por seu turno, migravam para outra área ainda não desmatada, e reiniciavam seu projeto.   Um com todos − Foi nesse cenário que um frade dominicano, vindo da França, chega à região em 1978 para travar uma luta tal qual Dom Quixote de La Mancha. Aliás, até fisicamente, ele se parece com o personagem de Cervantes. Chama-se frei Henri Burin des Roziers (1930). Sua família é abastada e ficou conhecida por fazer parte da Resistência Francesa contra o Nazismo. Formou-se em Letras e Direito. Atuava com estudantes da Universidade Sorbonne em maio de 1968, no movimento que mudou a França. Tornou-se um dos padres operários, trabalhando como motorista de caminhão e, depois, em uma fábrica, como forma de compreender e se aproximar da realidade sofrida dos trabalhadores, sobretudo dos migrantes. Ao chegar ao Bico do Papagaio, deparou-se com tamanha injustiça social contra os posseiros de terra – aqueles que habitavam a região por anos, mas não possuíam documento da terra. Encontrou também migrantes que foram recrutados em outras regiões do País com falsas promessas e se tornaram escravos modernos nas fazendas da região. Para ser mais útil, frei Henri valida seu diploma de Direito e se torna o advogado dos posseiros, através da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Enfrentou os poderes econômico e político e encabeçou por anos a lista dos ameaçados de morte. Viu morrer assassinados seus irmãos de CPT, padre Josimo Tavares, mártir da reforma agrária, e irmã Dorothy Stang, mártir da Amazônia. Seu trabalho não foi em vão. O Bico do Papagaio não é mais a campeã nacional do trabalho escravo, nem de morte de trabalhadores rurais, apesar dos imensos desafios que ainda existem para garantir o direito à dignidade a todos. Há três anos, ele visitava o Convento dos Dominicanos em sua terra natal, Paris, quando foi acometido de uma rara doença que lhe retirou a força das pernas. Não voltou mais. Está num quarto pequeno com uma janela em que contempla uma única árvore – plátano, a mais comum da cidade. Através dela, sabe a estação do ano. Estive com ele neste ano. Fiquei emocionado com a situação. Mostrou-se sorridente e feliz como sempre. Disse que agora tem tempo para contemplar a criação. Pensei em como ele, que combateu madeireiros na Amazônia, estava feliz por ter aquela única árvore na janela. Nunca deixou de ensinar pelo exemplo. Contemplar a árvore todo o dia é o exemplo de realização e libertação total. Felício Pontes JR, é Procurador do Ministério Público Federal - artigo orginalmente publicado na Revista Família Cristã.
Papa Francisco visita aos povos indígenas

Papa Francisco visita aos povos indígenas

por Roberto Malvezzi (Gogó)* Dia 18 de janeiro de 2018 o Papa Francisco irá a Puerto Maldonado, Peru, encontrar-se exclusivamente com povos originários da Amazônia. Tudo indica que sequer haverá reuniões particulares com autoridades, sejam elas políticas ou mesmo eclesiásticas. Essa ida a Amazônia para encontrar-se com “indígenas” já estava programada para quando ele viesse aos 300 anos de Aparecida. O golpe modificou a vinda do Papa. Embora as razões oficiais alegadas sejam outras, quem entende um pouco da linguagem diplomática do Vaticano sabe qual o motivo real. Será a primeira vez na história da Igreja Católica, em seus 2 mil anos, que um Papa sairá do Vaticano para encontrar-se exclusivamente com indígenas. O gesto fala por si mesmo, ainda mais agora que Francisco acaba de convocar um Sínodo exclusivo para os bispos da Amazônia, em Roma, em Outubro de 2019. Francisco ir ao encontro das populações originárias – querem ser chamadas pelo nome de seu povo, não por um apelido imposto pelos colonizadores – parece um paradoxo. Esses dias o mesmo Francisco canonizou cerca de 30 pessoas do Rio Grande do Norte por terem sido massacradas por holandeses em 1645. Depois de longos estudos ficou concluído que “foram mortos em defesa da fé católica”, numa resistência à imposição do calvinismo na região por parte dos holandeses. Acontece que o ataque tinha também participação dos índios Tapuia, que os antropólogos dizem não ser uma etnia, mas uma designação à várias nações indígenas que habitavam o interior do Brasil e que falavam uma língua diferente dos tupi-guarani, como os Cariri. Os Tapuia estavam em guerra declarada contra os portugueses, porque esses avançavam o interior fazendo-os escravos, ocupando seus territórios, com matanças e até torturas de lideranças. Assim como na Confederação dos Tamoios, quando os Tupinambá se uniram aos franceses contra os portugueses, os Tapuia se aliaram aos holandeses contra a prática de extermínio dos portugueses. Portanto, os povos originários entendiam da arte da guerra e de suas alianças. É bom lembrar que só no Brasil 5 milhões de índios viraram pó pelas mãos dos portugueses. No México, América Central e Peru, milhões de índios foram chacinados pelas mãos dos espanhóis. Como diziam os Mapuche, quando derreteram quilos de ouro e os enfiaram incandescentes goela abaixo de Valdivia, o conquistador do Chile: “beba o seu Deus”. Portanto, os povos originários das Américas têm mártires aos milhões, cujo sangue também clama aos céus. Esperamos que Francisco retome o melhor do Conselho Missionário Indigenista, o CIMI, que não foi aos indígenas para fazer prosélitos e nem os converter ao cristianismo, mas para colaborar para que sobrevivam e mantenham seus territórios e seus modos de vida. Com esses missionários a Igreja Católica deu vários passos à frente na relação com a alteridade das populações originárias, seguindo a melhor tradição de Bartolomeu de Las Casas.  Não se obriga um muçulmano a ser católico, não se obriga um pai de santo a ser evangélico, não se obriga um Cariri ou Guarani a ser cristão. Eles têm sua própria religião e suas opções tem que ser respeitadas. O evangelho é apenas um anúncio e adere livremente quem quiser. Não há outro caminho.     *Membro da Equipe de Assessoria da REPAM (Rede Eclesial Pan Amazônica)